quarta-feira, 10 de junho de 2026

                      Tudo é energia.



    
        Nossos pensamentos, palavras, atitudes e emoções geram energia o tempo todo. Quando cultivamos amor, gratidão, gentileza e equilíbrio, espalhamos bem-estar para nós mesmos e para quem está ao nosso redor.

       Da mesma forma, o mau humor, a amargura e a insatisfação constantes acabam afetando não apenas nosso ambiente, mas também nossa própria saúde física e emocional.

          A boa notícia é que mudar essa energia começa com gestos simples: um sorriso, um abraço, uma palavra de incentivo, um elogio sincero ou um simples "bom dia" dito com verdade.

          Lembre-se: aquilo que você emana retorna para você. Escolha, todos os dias, alimentar as melhores energias.

                                         Seja luz. Seja boa energia.

  Milton Barboza 


Clique no LINK abaixo para ter acesso ao texto na íntegra:

https://shre.ink/3tLR

domingo, 7 de junho de 2026

A importância dos Arquivos e dos Arquivistas para a sociedade

 Importância dos Arquivos Públicos e do Arquivista Para a Sociedade

Milton Barboza da Silva


 

Ao longo do tempo, o arquivo foi visto como um depósito de papel velho e sem utilidade e, dentro dele, o arquivista como um simples funcionário que “mexe com papel”. Mas, afinal, qual a importância do arquivo público e do arquivista para a sociedade?

Os arquivos são repositórios de memória dos grupos sociais. Ali estão armazenados diversos relatos da cultura e da tradição de uma comunidade. Atualmente, cresce o interesse pela reconstrução do passado e, nesse sentido, os arquivos públicos vêm a se somar na construção desse conhecimento.

Assim, na sociedade atual, os arquivos públicos têm a função de recolher, custodiar, preservar e conservar fundos originados no governo ou ainda de particulares que os enviam, seja em qual suporte for: papel, fotografia, audiovisual, oriundos de repositórios digitais, etc.

Sua função é lidar com essas informações de modo que possam ser transmitidas aos seus usuários, e sua competência vai além da de mero guardador de documentos: ele é responsável pela sua projeção junto à comunidade. Trata-se de seus serviços editoriais, de difusão cultural e de assistência educativa. Dessa maneira, o trabalho realizado pelo arquivista deve ser todo voltado para a valorização dos documentos, pois estes compreendem os registros da sociedade em que ele está inserido, suas recordações e suas memórias que irão ajudar na construção de sua identidade e história.

É dever do arquivista ser um agente cultural, proporcionando atividades que levem não só os pesquisadores ao arquivo, mas a população em geral, para que ali se apropriem desse espaço de construção e intercâmbio de conhecimento e de informações. Isso pode ser feito com atividades como exposições, palestras, lançamento de obras, concursos, debates, atividades educativas para estudantes, ciclos de cinema, entre outras tantas que despertem o interesse naquele local de memória chamado de Arquivo Público.

Nos últimos anos, precisamente da década de 1990 para cá, tem aumentado a adesão ao processo da digitalização dos acervos documentais, tanto privados como públicos. Essa iniciativa vem fazer frente à implantação de sistemas de e-governos, gestão eletrônica documental e migração do modelo físico para o suporte digital. Tudo certo, afinal estamos vivendo um boom da era digital e, com o incremento da IA, tornou-se inviável pensar tendo por base o modelo tradicional de produção e gestão documental.

Diante desse novo paradigma, os arquivos — precisamente os arquivistas — viram-se diante de uma questão: a migração do suporte de produção documental para o formato digital e o que fazer diante do desafio que se coloca. E não são poucos. Porém, como se trata de produção documental advinda do poder público, a regulamentação e normatização fez-se necessária. Assim, o CONARQ (Conselho Nacional de Arquivos) foi e é o órgão do Estado brasileiro encarregado de regulamentar os procedimentos e legislar, em todo o território nacional, as ações concernentes ao modo como proceder com a documentação pública. Portanto, leis e decretos federais que normatizam as práticas arquivísticas são complementados pelas resoluções do CONARQ. Fora disso, é invencionice e aberração de cabeças que desconhecem o modo de gerir a documentação pública e que se deixam seduzir pelo canto da sereia orquestrado pelas empresas de Tecnologia e de Digitalização.

O lugar de fala dos procedimentos técnicos para o tratamento da documentação pública é dos arquivistas; na ausência desses, cabe aos profissionais que lidam cotidianamente com a documentação gerada nos órgãos públicos. Lamentavelmente, não é o que acontece. Os gestores públicos, em sua grande maioria por completo desconhecimento de causa, transferem para empresas contratadas por licitação ou dispensa a responsabilidade de decidir o que fazer com o acervo documental. A responsabilidade dessas empresas é apenas alocar o suporte tecnológico de captura e indexação das imagens. A taxonomia, a temporalidade e a planificação são de responsabilidade do ente público.

Não é o que acontece. Por isso, ressaltamos a importância do profissional da arquivologia: este deve ser consultado no começo, no meio e ao fim de todo o processo de digitalização. Quem decide a guarda, o descarte e o modo correto de fazê-lo é o profissional que atua dentro dos arquivos; nunca deve ser transferida a responsabilidade para empresas externas ou gestores que desconhecem a práxis da produção documental.

 

Medeia, o amor destrutivo


quinta-feira, 4 de junho de 2026

Jacinta Passos

 

 

        Meu encontro tardio com Jacinta Passos

                           Milton Barboza da Silva



     Passei o final de semana com ela.

     Eu devia esse encontro adiado por tantos anos.

   Acredito, hoje, que a demora foi prudência. Eu simplesmente não estava pronto para ficar frente a frente com ela; tinha o receio honesto de não saber onde guardar a grandeza da mulher que eu já pressentia existir.

    A primeira tentativa desse encontro aconteceu em 1997, em meio ao fechamento do Hospital Psiquiátrico Adalto Botelho. O acervo documental havia sido despachado para o Arquivo Público Estadual e eu, movido pelo dever do servidor e pelo faro do historiador, apressei-me em organizar o Fundo Saúde. Eu sabia que aqueles papéis não eram apenas burocracia, mas os restos da história da psiquiatria em Sergipe. Ali, entre poeira e silêncios, deparei-me com os poucos prontuários que restaram — sobreviventes de uma limpeza que devolveu a maioria dos registros às famílias.

    Um deles, porém, fisgou o meu olhar: Jacinta Velloso Passos.

    Na identificação, um detalhe seco que escondia um abismo: "encaminhada pelo 28º BC para tratamento de esquizofrenia". Comecei a escavar. Busquei os motivos da prisão, os rastros da internação. Mais tarde, em  conversas com Welington Mangueira, Agonalto Pacheco e “ Careca “, da banca de revista do Parque, ouvi relatos de quando eles, ainda adolescentes,  e Mangueira aluno do Atheneu, dividiam com Jacinta Passos reuniões políticas e debates sobre como o cinema moldava a juventude da época.

    Munido dessas peças, percebi que tinha um tesouro nas mãos. Mas, de repente, veio o susto. Notei que estava diante de algo muito maior do que eu era capaz de encarar naquele momento.

    Então, parei. Deixei o silêncio assentar. Nunca mais voltei ao assunto, adiando por trinta anos esse encontro. Mas, no fundo, eu sempre desconfiei que, em algum momento da vida, Jacinta estaria ali, dobrando uma esquina qualquer da memória, esperando pelo acerto de contas com o tempo.

     Encontrá-la, afinal, tornou-se inevitável.

    Não fisicamente — o que seria um privilégio tardio —, mas através das páginas que ainda respiram seu pensamento. Passei os dias sendo atravessado por uma mulher que o seu tempo não soube escutar. E, ao final, ficou em mim essa estranha sensação: há encontros que a vida nos deve.

      Como eu iria amar ter conhecido essa mulher pessoalmente. Tudo nela é apaixonante. Não apenas possuía uma beleza física, mas sua personalidade, sua presença, sua força.

     Jacinta Passos era dessas presenças que não cabem em biografias. Baiana de Cruz das Almas, de família tradicional, fez o percurso esperado: foi para Salvador, Magistério, Pedagogia. Poderia ter sido apenas mais um nome respeitável entre tantos. Mas não. Havia nela uma inquietação que não se educa — apenas se expande.

    Casou-se com James Amado, irmão de Jorge Amado. Teve uma filha, Janaína. Teve também uma trajetória intelectual rara: coerente, crescente, lúcida. Enquanto muitos se repetem, ela se ampliava. Enquanto outros se acomodam, ela aprofundava. Foi professora, jornalista, poeta, articulista e militante de esquerda, com passagem pelo Partido Comunista. Era voz ouvida.

     Mas há vidas em que a lucidez cobra um preço alto.

     Disseram que era esquizofrênica.

     Talvez fosse. Ou talvez fosse apenas uma mulher que ouvia demais — não vozes do delírio, mas as vozes subterrâneas da realidade. Vozes que a maioria de nós aprende a silenciar para sobreviver. Ela não. Ela escutava e devolvia ao mundo, em forma de poesia, aquilo que o mundo preferia não ouvir.

     Chamaram isso de loucura.

     Era mais fácil.

     Diziam que falava sozinha. Mas quem já escreveu sabe: pensar, às vezes, precisa de som. E ela falava — recitava — seus versos, suas ideias, suas inquietações. Era um diálogo consigo mesma, e com o tempo, e com a injustiça.

     Hoje, talvez, lhe dessem outro nome.     Naquele tempo, deram-lhe um diagnóstico.

      E um destino.

     Separada da filha, empurrada pela própria família para a lógica da internação, Jacinta recusou, por um momento, o destino que lhe queriam impor. Saiu. Fugiu do hospital. Tentou viver. Tentou ainda acreditar que havia lugar para ela no mundo dos vivos.

      Passou por Petrolina. Não ficou.

     Chegou a Aracaju em 1962. Também não encontrou abrigo entre os seus. Foi então para a margem — geográfica e social —: Barra dos Coqueiros. Um barraco de madeira e papelão, o rio por perto, a vida reduzida ao essencial.

     E, no entanto, foi ali que ela floresceu de outro modo.

     Entre pescadores e ribeirinhos, tornou-se uma igual. Ensinou a ler, a escrever, a pensar. Fez da educação uma forma de insurgência. Essa era sua “loucura”: acreditar que o povo podia compreender o mundo — e transformá-lo.

    Era comunista. E, naquele tempo, isso também era um diagnóstico.

    Veio o golpe de 1964. Veio a vigilância.    Vieram os olhos do Estado.

    Mas ela não se recolheu.

    Em 1965, foi presa por escrever nos muros aquilo que muitos pensavam em silêncio. Levaram-na ao quartel. Interrogaram-na. E ela respondeu como sabia: em versos. Não por estratégia — mas por natureza. Não conseguia falar de outro modo.

    O oficial percebeu que não estava diante de um caso simples. Chamaram um psiquiatra.

    E, assim, a política encontrou na psiquiatria uma solução conveniente.

    Louca.

    Internar.

    Silenciar.

    Primeiro o hospital público. Depois, a clínica privada. No prontuário, uma anotação que diz mais sobre o tempo do que sobre ela: “comunista desde 1944”.

    E assim se constrói uma prisão sem julgamento.

    Nove anos.

    Nove anos de contenção, vigilância e eletrochoques. Nove anos em que o corpo foi sendo domado — mas não a escrita. Porque, mesmo ali, ela escreveu. Compulsivamente. Como quem resiste. Como quem respira.

     Foram 3.348 páginas.

     Poesia, pensamento, denúncia, sonho. Um mundo inteiro comprimido em cadernos que sobreviveram ao silêncio imposto.

     Ela dizia: “Sou uma presa política.”

     E era.

     Mas sua lucidez era inconveniente demais para ser julgada em praça pública. Melhor trancá-la onde suas palavras não ecoassem.

     Morreu em 1973, aos 58 anos, em um quarto de clínica. Um derrame. Talvez o corpo já não suportasse os choques — elétricos e históricos.

      Morreu, mas não cessou.

     Porque há pessoas que, quando deixam de ser indivíduo, tornam-se outra coisa.

     Ela mesma escreveu:

“Quando eu não for mais um indivíduo, eu serei poesia.

Eu não serei eu — serei nós.

Serei poesia permanente,

poesia sem fronteira.”

      E é isso que ela é.

      Não uma lembrança.

      Mas uma presença que insiste.

 

Conceição Aguiar: artesã e artista plástica

                                                                       

                          Fonte: acervo do autor


Maria da Conceição Ferreira Viana Aguiar, simplesmente Conceição Aguiar Uma mulher que faz o que gosta e gosta do que faz.

Mulher resolvida, esbanjando vitalidade, assim é Maria da Conceição Ferreira Viana Aguiar, ou simplesmente Conceição Aguiar. Alagoana, das terras de Zumbi, União dos Palmares, traz em seu DNA o código que se abre para uma imersão perfeitamente integrada entre o seu ser e o ser maior que é o todo e tudo à sua volta. É uma artista de muitas tendências na arte.

A opção pelo casamento fez com que nossa artista deixasse seu pedaço de chão e, entre tantos lugares, fixasse raízes nas terras de Serigi. Por aqui, Conceição criou seus filhos, cultivou amizades e (re)descobriu partes de seu universo sensível, muito bem plantadas na infância sob a influência de seus genitores – o pai era músico e a mãe fazia rendas.

Puxando pela memória, Conceição diz já morar no Conjunto Beira Mar mais de 30 anos, tendo sido, juntamente com dona Vivi, entre outros, uma de suas primeiras moradoras. A opção de vir morar no Beira Mar foi em virtude de ser um conjunto novo — adquiriu seu imóvel ainda em construção —, por ser isolado do centro urbano e por oferecer uma qualidade de vida boa para os padrões da época. No entanto, como todo residencial que está sendo implantado, carecia de infraestrutura, transportes e serviços; então, tudo tinha que ser feito ou adquirido fora, o que, nesse caso, implicava sempre em percorrer uma boa distância para outros lugares da cidade.

A praça sempre foi um espaço de muita significação. No passado como no presente, as praças possibilitam encontros que afetam a vida dos moradores que delas fazem uso. A praça Dom José Brandão, ou simplesmente a praça da Associação, como a chamamos, é um desses espaços inspiradores. Não é incomum encontrar Conceição sentada na praça do conjunto Beira Mar, logo em frente à sua residência, fazendo arte. A artista, a praça e seu artesanato estão tão integrados que arrisco dizer tratar-se de um ambiente de múltiplas inspirações. Mesmo sabendo que ela tem seu ateliê de trabalho, quando a vejo produzindo seu artesanato ali, sinto como se a praça fosse um imenso ateliê.

Conceição é uma artista de múltiplas facetas. Ela pinta, borda, faz bonecas de tecido e revela sua paixão pelas colchas de retalhos, hoje chamadas de patchwork (nossa artesã sorri com essa americanização). A renda — sim, ela também é uma “mulher rendeira” — diz que ficou latente em suas lembranças dos primeiros sete anos de vida. Só mais recentemente resolveu trazer à tona essa arte. Foi, então, à procura dos bilros, que, segundo a artesã, não podem ser quaisquer uns. Quanto à almofada, ela mesma a confeccionou. Recebeu algumas instruções e, pronto... estava de volta à memória da infância. Hoje, diz fazer suas peças de renda de bilro para presentear as pessoas queridas.

Como artista plástica, Conceição Aguiar, como assina suas telas, participou de inúmeras exposições. É uma presença constante em eventos promovidos pela Associação Sergipana de Artistas Plásticos e de Artes Visuais e no Encontro Cultural de Laranjeiras. Tem diversos certificados de participação na AAPLASA (Associação dos Artistas Plásticos de Aracaju), bem como já expôs no espaço cultural Djenal Queiróz, da Assembleia Legislativa; no Cultart (Centro de Cultura e Arte da UFS); no espaço cultural da Unimed; no Palácio Museu Olímpio Campos e em tantos outros.

Já se disse que seus traços e pinturas sofrem influências de Modigliani e mesmo de Tarsila do Amaral. Pode ser. Não sou um crítico de arte, mas a representação das mulheres – tão intensa em sua obra – é mesmo um convite para apreciar e tentar entender esse espírito sob o olhar de Conceição, que, por fim, também escreve e faz poesia.

                                                                                  Milton Barboza da Silva

         ( Pulbicado inicialmente na Revista ECO do meio ambiente da Secretaria Municipal de Meio Ambiente.)

ALBUM DE FOTOS DE CONCEIÇÃO AGUIAR:

          

















terça-feira, 26 de maio de 2026

Quando a emoção se sobrepõe à razão

 

Se eu fosse inscrito nas redes sociais — o que não sou —, depois do comentário que farei, certamente seria cancelado. Mas vou reivindicar o direito de pensar, de pensar com liberdade.

Vejam o vídeo da transmissão do Carnaval de 2026, pela TV Globo, em que o comentarista Milton Cunha, totalmente emocionado, explode em elogios a Ney Matogrosso.

1 — É inquestionável que Ney Matogrosso é um artista performático de primeira grandeza. É um cantor que dispensa comentários. Gosto de tudo o que ele faz como cantor, artista, intérprete e performer.

2 — Milton Cunha é um comentarista, carnavalesco e comunicador com extraordinário poder de comunicação com o público. É também um homem inteligente e de sólida formação intelectual. Doutor em História da Arte, tenho por ele respeito quando faz alocuções sobre o carnaval como manifestação da arte popular e de rua.

3 — Nenhum comunicador deve esquecer que é formador de opinião. Seus pensamentos, principalmente quando veiculados em um meio de comunicação de amplo alcance, como é o caso da Rede Globo, acabam influenciando a construção de opiniões e valores nos receptores da mensagem, sobretudo naqueles que têm preguiça mental para pensar — infelizmente, a maioria.

4 — Quando Milton afirma, emocionado ou não, com tanta veemência, que “Ney escreveu a história da masculinidade do século XX”, tenha a santa paciência... É uma forçada de barra que beira o absurdo. Posso até entender que essa opinião reflita a orientação sexual do comentarista, assumidamente gay, mas ela não reflete a realidade, tampouco a minha percepção sobre o papel de Ney Matogrosso.

5 — Se a masculinidade do século XX é a manifestada pela performance do artista em questão, ela não me representa. Se assim fosse, eu teria de concordar com opiniões míopes de algumas mulheres que dizem, ao irem para um show ou carnaval: “Olhava para frente, para trás, para os lados, e só tinha viados...”.

É a velha história do cisne branco. Você quer encontrar um homem que não seja afeminado, gay ou bissexual em shows, carnavais, baladas e barzinhos? Lamento informar, mas pode ser que existam homens que não estejam nesses lugares, e sim em outros que talvez você não frequente.

6 — Por último, a masculinidade não é performática; é um comportamento e uma atitude associados ao gênero masculino e, por isso, não deve ser confundida com feminilidade. Eu não preciso gritar que sou homem, nem que sou mulher; essas são atribuições naturais. O gay, muitas vezes, sente necessidade de afirmar sua identidade porque sofre rejeição e precisa ser aceito. Isso é compreensível.

Ney é um conceito, assim como a moda é construída sobre conceitos. Mas você não veste o conceito; veste aquilo que lhe é próprio, adequado e confortável. Os conceitos servem para inspirar. Assim, Ney Matogrosso é uma inspiração para gays e pessoas de orientação semelhante, mas nunca para a masculinidade do século.

Prof. Milton Barboza da Silva

  

segunda-feira, 18 de maio de 2026

                                                             13 de Maio

Milton Barboza da Silva 


    A historiografia tradicional costumou marcar os fatos históricos por meio de eras, séculos, milênios ou mesmo datas específicas. Os historiadores da pós-modernidade têm aversão à forma como essa marcação temporal é feita, pois sabemos que a História é muito mais do que uma data: trata-se de um processo marcado por avanços, retrocessos e rupturas dentro de uma dialética infindável.

    O movimento negro no Brasil não comemora o 13 de Maio da forma como a historiografia tradicional o apresentou, isto é, como o “Dia da Abolição da Escravatura”. Esse movimento denuncia que a escravidão no Brasil continuou mesmo após a assinatura da Lei Áurea e que, nesses 138 anos desde sua promulgação, a população negra ainda sofre os efeitos e as consequências de mais de 300 anos de escravidão.

     Concordo com o movimento negro brasileiro, pois as condições da população preta no país revelam, no mínimo, um cenário de desigualdade e injustiça social visível a olho nu. Tivemos alguns avanços, é verdade. Parte deles resulta da luta dos diversos coletivos negros ao longo do tempo; outra parte decorre de leis implementadas por governos progressistas nos últimos 20 anos, como a Lei de Cotas, de 2012, entre outras políticas afirmativas adotadas no Brasil.

     Ainda há muito a ser feito para combater as práticas cotidianas de racismo, sejam elas veladas ou ostensivas. Criminalizar essas práticas já é um começo importante, mas também é necessário estimular o conhecimento e a formação crítica da população por meio de modelos educacionais que abordem essa questão de maneira reflexiva.

      Educação e cultura, juntas, podem contribuir significativamente para a transformação desse cenário triste de exclusão e marginalização dos povos de origem africana no Brasil.


17 de Maio dia de luta contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia


 

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

 

200 anos de Independência sem comemorações

(Texto escrito em 8 de julho de 2020, publicado nesse blog,  revisado e republicado seis anos após sua primeira edição

 


            Não fosse a pandemia, hoje estaria ocorrendo uma vasta programação organizada pelo Governo do Estado, pela Prefeitura Municipal e por diversas instituições educacionais e culturais de Sergipe, com o intuito de celebrar os 200 anos da assinatura do Decreto de 8 de julho de 1820, pelo qual o rei isentou a Capitania de Sergipe d’El Rei da sujeição à Capitania da Bahia, dela ficando totalmente livre.

Havia a intenção — inclusive, uma comissão foi criada para tal fim — de que a programação pelos duzentos anos da Independência de Sergipe se estendesse por todo o ano. Entretanto, já em abril se sabia da impossibilidade de realizar as comemorações, em virtude dos decretos governamentais e da expansão do corona vírus pelo Estado.

O centenário da Independência de Sergipe (1920), por pouco, não deixou de ser comemorado. E a razão? A pandemia da gripe espanhola, que assolou diversos países entre 1918 e 1920. Em Sergipe, o período mais crítico ocorreu entre meados de 1918 e o início de 1919. Foram três meses de intensa afetação da população, gerando uma crise sanitária sem precedentes. Nesse período, os registros oficiais — questionados até mesmo pelas autoridades da época — contabilizaram 25.910 infectados pelo vírus, com um total de 910 óbitos. Em apenas três meses!

Esse quadro terminou por interferir na grande festa que se pretendia realizar pelas comemorações do centenário da Independência de Sergipe. Ao final, a celebração restringiu-se a uma festa localizada, com distribuição de medalhas, comendas e diplomas oficiais. O ponto alto foi a inauguração da estátua de Tobias Barreto, obra do escultor italiano Lourenzo Petrucci, um belo exemplar da Belle Époque, instalada na Praça Pinheiro Machado, que, após a colocação da estátua, passou a se chamar Praça Tobias Barreto.

Hoje, apesar de todos os esforços empreendidos por diversas instituições, o bicentenário não pôde ser celebrado. Como no centenário, o impedimento se deveu à pandemia da Covid-19. Assim, as celebrações ficaram restritas aos meios de comunicação, que veicularam, ao longo do dia, vinhetas comemorativas. Muito pouco, mas... vamos esperar o tricentenário, preferencialmente sem pandemia.

Durante muitos anos, a data comemorativa da Independência do Estado era celebrada em dois momentos: no 8 de julho e no 24 de outubro. Não se sabe ao certo como o 24 de outubro passou a ser considerado uma data comemorativa da independência. Já realizei diversas pesquisas, tanto documentais quanto por meio da história oral. O único registro que localizei diz respeito ao fato de Sergipe ter retomado a condição de independência, conforme previsto no Decreto de 8 de julho de 1820, uma vez que, desde 1822, havia voltado à sujeição da Bahia. Contudo, com a expulsão das tropas portuguesas sediadas em Salvador, o governo provisório, no Rio de Janeiro, confirmou a autonomia de Sergipe. E essa confirmação ocorreu em 24 de outubro de 1824. Conclui-se, portanto, que se tratou mais de uma comemoração popular do ato de confirmação da independência do que propriamente do ato oficial. Oficialmente, comemorava-se o 8 de julho, mas o povo insistia no 24 de outubro.

Durante a elaboração da Constituição do Estado de Sergipe, promulgada em 5 de outubro de 1989, ficou definido que o feriado comemorativo da Independência de Sergipe seria apenas o 8 de julho. Por proposição do então deputado estadual constituinte Marcelo Déda, o 24 de outubro passou a ser comemorado como o Dia da Sergipanidade.

A Independência de Sergipe não transcorreu de forma tranquila. Ao contrário, foi um processo lento, repleto de idas e vindas. A Bahia não admitia a perda do território sergipano e, utilizando-se de sua maior influência junto ao governo central, conseguiu protelar, em diversos momentos, a efetivação do Decreto Real. Em muitas ocasiões, seus comandantes, tanto civis quanto militares, realizaram investidas sobre o território sergipano, promovendo invasões e prisões de líderes e governantes. Em 1822, apenas dois anos após o Decreto da Independência, a Bahia invadiu São Cristóvão e prendeu o governador da Capitania, Carlos Burlamarque, levando-o, juntamente com sua esposa e filhos, para Salvador.

Como a Independência de Sergipe está diretamente ligada à Independência do Brasil — já que ambas são contemporâneas —, Sergipe terminou se envolvendo em todo o processo que culminou na Independência do Brasil. Assim, diversos movimentos pró-independência foram travados em nosso território, tanto em defesa da independência de Sergipe quanto da do Brasil.

Em síntese, nosso processo de independência inicia-se com a Carta Régia de 10 de maio de 1728, que transferiu a jurisdição dos moradores da Freguesia de Nossa Senhora de Nazareth (Bahia) para o domínio da Freguesia do Rio Real de Cima (Sergipe). Com a Carta Régia de 24 de abril de 1729, a Bahia conseguiu empurrar as fronteiras da região de Itapoã para as proximidades do rio Subaúma, mais próximas de Sergipe, impondo uma perda territorial que até hoje nos faz falta, uma vez que jamais foi corrigida. Em seguida, veio o Decreto de 8 de julho de 1820, pelo qual o rei isentou Sergipe da submissão à Bahia — o Decreto da Independência. Por fim, o Decreto de 5 de dezembro de 1822 ratificou todos os anteriores. O que, se por um lado confirmou nossa independência, por outro não modificou os avanços da Bahia sobre o território sergipano, uma vez que tais avanços foram igualmente ratificados.

                                                                       Prof. Milton Barboza da Silva

                                                                                 

 

             

 


A revolta do Homo Erectus

 

                   Milton Barboza da silva

 

    

 

 

            A espécie humana levou milhares e milhares de anos para se levantar, tornar-se bípede ( andar sobre os dois pés ), foi um longo processo de perdas e aquisições de atributos, tanto anatômicos quanto comportamentais. Olhando-nos caminhando hoje, com desenvoltura, equilibrado sobre os dois pés, aparentemente, parece tarefa fácil e absolutamente natural. Mas não é, não foi e, ao que parece, não será.

            Para reforçar o grau de dificuldade do bipedalismo ( ato de andar sobre dois pés), convém observar como é difícil para um bebê se manter equilibrado, quando engatinhar é tão fácil, tem crianças que parece ligar um turbo enquanto se locomove sobre os joelhos e as mãos. Ressalte-se, ainda, que a curvatura no solado dos pés humanos, foi uma aquisição anatômica imprescindível ao ato de se levantar, que os diga os famosos “pés chatos” , vítimas de uma “tortura” ortopédica durante anos, quando os ortopedistas recomendavam o uso das famigeradas botas para moldar a cava do solado do pé.

            Consta ( assim afirma a Paleontologia, que estuda a evolução dos fósseis que fomos deixando para trás ao longo de milhões de anos ), que os primeiros homens que se cansou de andar de quatro, ou de viver pulando de galho em galho, aconteceu por volta de 4,5 a 5 milhões de anos. Esse nosso parente teria vivido na África, região de Ramideo ( homo ramidius), ele não seria totalmente bípede, pelo menos é o que indica os restos de seu esqueleto, mas que já possuía atributos do bipedarismo. Digamos que quando ele se cansava de andar sobre os pés, não hesitava em voltar a apoiar-se sobre as mãos.

            Agora, a certeza mesmo da existência do homem erectus pleno – o que só andava apoiado sobre os pés -, veio com a descoberta dos fósseis de Lucy, assim chamada porque o paleontólogo que descobriu seus ossos estava ouvindo, no momento do achado em seu fone de ouvidos,  a música Lucy in the Sky with Diamonds, gravada pelos Beatles ( 1967), composição de Lenon/McCarthey. Essa nossa ancestral, classificada de Australopithecus Aferensis, deixa pra lá, vamos chamá-la só de Lucy, possuía todos os requisitos anatômicos de um bipedalismo. A posição de seu crâneo, a coluna em formato de um S delgado, bem como a curvatura do pé, tudo isso indica que ela andava, corria e pulava sobre os pés e não com apoio das mãos.

Isso foi a 4 milhões de anos! Então, eu, você e todos os humanos, temos uma conquista que já dura quatro milhões de anos. Somos bípedes, somos erectus, nossa coluna forma uma curva bem suave,  como se fosse um S longo, para facilitar tudo isso. Portanto, andar em pé, com uma postura erecta é o nosso marco e nossa marca. Não tem volta, a menos que queiramos regredir na evolução, o que seria uma involução. Não dá, fora de cogitação. Porém...

Porém lá na Tanzania, na África Ocidental, em 1952, foi identificado um vírus chamado CHIKV, apelidado de Chikungunya, que em 2005 infectou na India, Indonésia, Maldávia, Mianmar, e na Tailândia quase 2 milhões de pessoas. Em 2007, houve epidemia do CHIKV no norte da Itália e de lá para vários países, incluindo o Brasil. Você já deve está se perguntando, o que a epidemia de Chikungunya tem haver com o tema central de nossa conversa?

Em dialeto maconde, falado pelos povos macondes, que habitam ao norte de Moçambique e no sul da Tanzânia, a palavra Chikungunya significa “ aqueles que se dobram “, que andam encurvado. A postura arqueada que o doente infectado pelo CHIKV         assume durante o estágio mais agudo da infecção, deve-se, segundo os reumatologistas, a inflamações nas articulações, principalmente na região do quadril e nos tornozelos, mas também se espalha entre os dedos das mãos e dos pés. As dores são tão fortes e constantes que o doente não consegue ficar, durante semanas, meses e alguns por anos, em posição erecta. Passa a andar, literalmente encurvado.

Como pode uma injeção subcutânea de uma carga viral, depositada após uma picada de uma fêmea do Aedes aegypti, o mesmo mosquito que transmite a dengue e a zica, colocar em risco tudo o que  conquistamos a 4 milhões de anos atrás? Isso mesmo, uma pessoa infectada pelo vírus da Chikungunya não consegue ficar na posição erecta, quando está sentado, ao se levantar, é forçado a assumir uma posição encurvada, uma vez que suas articulações não respondem. Durante semanas, meses, um ser humano é obrigado a abrir mão de uma conquista de milhões de anos e se curvar diante de um vírus!

Ao que vejo, não se trata apenas de uma curvatura, os vírus têm nos submetido a uma pesada carga, nos últimos tempos, tem custado a vida de milhões de pessoas. Então, quem é mesmo o inimigo do homem? Um ser tão pequeno, que até mesmo nem se sabe se é um ser  vivo ou não, de constituição simples,  que precisar parasitar uma célula para garantir sua replicação, ameaça toda a espécie humana! Ameaça a vida e a postura dos seres humanos, esses sim, complexos.

Por tudo isso, considerando que o Brasil vive hoje, em plena epidemia do CHIKV, porque temos centenas e milhares de pessoas incapacitadas de usufruírem, minimamente uma conquista de milhões de anos, que é andar em uma postura erecta, mas também incapacitadas para realizarem as mais simples tarefas de seu dia a dia, é que conclamo a revolta do homo erectus.

Devemos nos rebelar pelo direito de sermos bípedes, pelo direito de garantir e preservar a conquista do bipedalismo, pelo direito de andar em pé e não encurvado, pelo direito de não nos submetermos a tirania de um ser parasitário. Que nossa rebeldia chegue aos ouvidos das autoridades governamentais, aos laboratórios, às universidades e aos pesquisadores, aos investidores das pesquisas. A pandemia do Covid-19 é uma prova de que quando se unem esforços, uma vacina é descoberta em pouquíssimo tempo.