sexta-feira, 5 de junho de 2026
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Jacinta Passos
Meu encontro tardio com Jacinta Passos
Milton Barboza da Silva
Passei o final de semana com ela.
Eu devia esse
encontro adiado por tantos anos.
Acredito, hoje, que a demora foi prudência. Eu simplesmente não estava pronto para ficar frente a frente com ela; tinha o receio honesto de não saber onde guardar a grandeza da mulher que eu já pressentia existir.
A primeira tentativa desse encontro
aconteceu em 1997, em meio ao fechamento do Hospital Psiquiátrico Adalto
Botelho. O acervo documental havia sido despachado para o Arquivo Público
Estadual e eu, movido pelo dever do servidor e pelo faro do historiador,
apressei-me em organizar o Fundo Saúde. Eu sabia que aqueles papéis não eram
apenas burocracia, mas os restos da história da psiquiatria em Sergipe. Ali,
entre poeira e silêncios, deparei-me com os poucos prontuários que restaram —
sobreviventes de uma limpeza que devolveu a maioria dos registros às famílias.
Um deles, porém, fisgou o meu olhar: Jacinta
Velloso Passos.
Na identificação, um detalhe seco que
escondia um abismo: "encaminhada pelo 28º BC para tratamento de
esquizofrenia". Comecei a escavar. Busquei os motivos da prisão, os
rastros da internação. Mais tarde, em
conversas com Welington Mangueira, Agonalto Pacheco e “ Careca “, da
banca de revista do Parque, ouvi relatos de quando eles, ainda adolescentes, e Mangueira aluno do Atheneu, dividiam com Jacinta
Passos reuniões políticas e debates sobre como o cinema moldava a juventude da
época.
Munido dessas peças, percebi que tinha um
tesouro nas mãos. Mas, de repente, veio o susto. Notei que estava diante de
algo muito maior do que eu era capaz de encarar naquele momento.
Então, parei. Deixei o silêncio assentar.
Nunca mais voltei ao assunto, adiando por trinta anos esse encontro. Mas, no
fundo, eu sempre desconfiei que, em algum momento da vida, Jacinta estaria ali,
dobrando uma esquina qualquer da memória, esperando pelo acerto de contas com o
tempo.
Encontrá-la, afinal, tornou-se inevitável.
Não fisicamente — o que seria um privilégio
tardio —, mas através das páginas que ainda respiram seu pensamento. Passei os
dias sendo atravessado por uma mulher que o seu tempo não soube escutar. E, ao
final, ficou em mim essa estranha sensação: há encontros que a vida nos deve.
Como eu iria amar
ter conhecido essa mulher pessoalmente. Tudo nela é apaixonante. Não apenas
possuía uma beleza física, mas sua personalidade, sua presença, sua força.
Jacinta Passos era
dessas presenças que não cabem em biografias. Baiana de Cruz das Almas, de
família tradicional, fez o percurso esperado: foi para Salvador, Magistério,
Pedagogia. Poderia ter sido apenas mais um nome respeitável entre tantos. Mas
não. Havia nela uma inquietação que não se educa — apenas se expande.
Casou-se com James
Amado, irmão de Jorge Amado. Teve uma filha, Janaína. Teve também uma
trajetória intelectual rara: coerente, crescente, lúcida. Enquanto muitos se
repetem, ela se ampliava. Enquanto outros se acomodam, ela aprofundava. Foi
professora, jornalista, poeta, articulista e militante de esquerda, com
passagem pelo Partido Comunista. Era voz ouvida.
Mas há vidas em
que a lucidez cobra um preço alto.
Disseram que era
esquizofrênica.
Talvez fosse. Ou
talvez fosse apenas uma mulher que ouvia demais — não vozes do delírio, mas as
vozes subterrâneas da realidade. Vozes que a maioria de nós aprende a silenciar
para sobreviver. Ela não. Ela escutava e devolvia ao mundo, em forma de poesia,
aquilo que o mundo preferia não ouvir.
Chamaram isso de loucura.
Era mais fácil.
Diziam que falava
sozinha. Mas quem já escreveu sabe: pensar, às vezes, precisa de som. E ela
falava — recitava — seus versos, suas ideias, suas inquietações. Era um diálogo
consigo mesma, e com o tempo, e com a injustiça.
Hoje, talvez, lhe
dessem outro nome. Naquele tempo,
deram-lhe um diagnóstico.
E um destino.
Separada da filha,
empurrada pela própria família para a lógica da internação, Jacinta recusou,
por um momento, o destino que lhe queriam impor. Saiu. Fugiu do hospital.
Tentou viver. Tentou ainda acreditar que havia lugar para ela no mundo dos
vivos.
Passou por Petrolina. Não ficou.
Chegou a Aracaju
em 1962. Também não encontrou abrigo entre os seus. Foi então para a margem —
geográfica e social —: Barra dos Coqueiros. Um barraco de madeira e papelão, o
rio por perto, a vida reduzida ao essencial.
E, no entanto, foi ali que ela floresceu de
outro modo.
Entre pescadores e
ribeirinhos, tornou-se uma igual. Ensinou a ler, a escrever, a pensar. Fez da
educação uma forma de insurgência. Essa era sua “loucura”: acreditar que o povo
podia compreender o mundo — e transformá-lo.
Era comunista. E,
naquele tempo, isso também era um diagnóstico.
Veio o golpe de
1964. Veio a vigilância. Vieram os
olhos do Estado.
Mas ela não se recolheu.
Em 1965, foi presa
por escrever nos muros aquilo que muitos pensavam em silêncio. Levaram-na ao
quartel. Interrogaram-na. E ela respondeu como sabia: em versos. Não por
estratégia — mas por natureza. Não conseguia falar de outro modo.
O oficial percebeu
que não estava diante de um caso simples. Chamaram um psiquiatra.
E, assim, a
política encontrou na psiquiatria uma solução conveniente.
Louca.
Internar.
Silenciar.
Primeiro o hospital
público. Depois, a clínica privada. No prontuário, uma anotação que diz mais
sobre o tempo do que sobre ela: “comunista desde 1944”.
E assim se constrói
uma prisão sem julgamento.
Nove anos.
Nove anos de
contenção, vigilância e eletrochoques. Nove anos em que o corpo foi sendo
domado — mas não a escrita. Porque, mesmo ali, ela escreveu. Compulsivamente.
Como quem resiste. Como quem respira.
Foram 3.348 páginas.
Poesia,
pensamento, denúncia, sonho. Um mundo inteiro comprimido em cadernos que
sobreviveram ao silêncio imposto.
Ela dizia: “Sou uma presa política.”
E era.
Mas sua lucidez
era inconveniente demais para ser julgada em praça pública. Melhor trancá-la
onde suas palavras não ecoassem.
Morreu em 1973,
aos 58 anos, em um quarto de clínica. Um derrame. Talvez o corpo já não
suportasse os choques — elétricos e históricos.
Morreu, mas não cessou.
Porque há pessoas
que, quando deixam de ser indivíduo, tornam-se outra coisa.
Ela mesma escreveu:
“Quando eu não for mais um indivíduo,
eu serei poesia.
Eu não serei eu — serei nós.
Serei poesia permanente,
poesia sem fronteira.”
E é isso que ela é.
Não uma lembrança.
Mas uma presença que insiste.
Conceição Aguiar: artesã e artista plástica
Fonte: acervo do autor
Maria da Conceição Ferreira Viana Aguiar, simplesmente
Conceição Aguiar Uma
mulher que faz o que gosta e gosta do que faz.
Mulher
resolvida, esbanjando vitalidade, assim é Maria da Conceição Ferreira Viana
Aguiar, ou simplesmente Conceição Aguiar. Alagoana, das terras de Zumbi, União
dos Palmares, traz em seu DNA o código que se abre para uma imersão
perfeitamente integrada entre o seu ser e o ser maior que é o todo e tudo à sua
volta. É uma artista de muitas tendências na arte.
A
opção pelo casamento fez com que nossa artista deixasse seu pedaço de chão e,
entre tantos lugares, fixasse raízes nas terras de Serigi. Por aqui, Conceição
criou seus filhos, cultivou amizades e (re)descobriu partes de seu universo
sensível, muito bem plantadas na infância sob a influência de seus genitores –
o pai era músico e a mãe fazia rendas.
Puxando
pela memória, Conceição diz já morar no Conjunto Beira Mar há mais de 30
anos, tendo sido, juntamente com dona Vivi, entre outros, uma de suas primeiras
moradoras. A opção de vir morar no Beira Mar foi em virtude de ser um conjunto
novo — adquiriu seu imóvel ainda em construção —, por ser isolado do centro
urbano e por oferecer uma qualidade de vida boa para os padrões da época. No
entanto, como todo residencial que está sendo implantado, carecia de
infraestrutura, transportes e serviços; então, tudo tinha que ser feito ou
adquirido fora, o que, nesse caso, implicava sempre em percorrer uma boa
distância para outros lugares da cidade.
A
praça sempre foi um espaço de muita significação. No passado como no presente,
as praças possibilitam encontros que afetam a vida dos moradores que delas
fazem uso. A praça Dom José Brandão, ou simplesmente a praça da Associação,
como a chamamos, é um desses espaços inspiradores. Não é incomum encontrar
Conceição sentada na praça do conjunto Beira Mar, logo em frente à sua
residência, fazendo arte. A artista, a praça e seu artesanato estão tão
integrados que arrisco dizer tratar-se de um ambiente de múltiplas inspirações.
Mesmo sabendo que ela tem seu ateliê de trabalho, quando a vejo produzindo seu
artesanato ali, sinto como se a praça fosse um imenso ateliê.
Conceição
é uma artista de múltiplas facetas. Ela pinta, borda, faz bonecas de tecido e
revela sua paixão pelas colchas de retalhos, hoje chamadas de patchwork
(nossa artesã sorri com essa americanização). A renda — sim, ela também é uma
“mulher rendeira” — diz que ficou latente em suas lembranças dos primeiros sete
anos de vida. Só mais recentemente resolveu trazer à tona essa arte. Foi, então,
à procura dos bilros, que, segundo a artesã, não podem ser quaisquer uns.
Quanto à almofada, ela mesma a confeccionou. Recebeu algumas instruções e,
pronto... estava de volta à memória da infância. Hoje, diz fazer suas peças de
renda de bilro para presentear as pessoas queridas.
Como
artista plástica, Conceição Aguiar, como assina suas telas, participou de
inúmeras exposições. É uma presença constante em eventos promovidos pela
Associação Sergipana de Artistas Plásticos e de Artes Visuais e no Encontro
Cultural de Laranjeiras. Tem diversos certificados de participação na AAPLASA
(Associação dos Artistas Plásticos de Aracaju), bem como já expôs no espaço
cultural Djenal Queiróz, da Assembleia Legislativa; no Cultart (Centro de
Cultura e Arte da UFS); no espaço cultural da Unimed; no Palácio Museu Olímpio
Campos e em tantos outros.
Já
se disse que seus traços e pinturas sofrem influências de Modigliani e mesmo de
Tarsila do Amaral. Pode ser. Não sou um crítico de arte, mas a representação
das mulheres – tão intensa em sua obra – é mesmo um convite para apreciar e
tentar entender esse espírito sob o olhar de Conceição, que, por fim, também
escreve e faz poesia.
Milton Barboza da Silva
( Pulbicado inicialmente na Revista ECO do meio ambiente da Secretaria Municipal de Meio Ambiente.)ALBUM DE FOTOS DE CONCEIÇÃO AGUIAR:
sábado, 30 de maio de 2026
terça-feira, 26 de maio de 2026
Quando
a emoção se sobrepõe à razão
Se
eu fosse inscrito nas redes sociais — o que não sou —, depois do comentário que
farei, certamente seria cancelado. Mas vou reivindicar o direito de pensar, de
pensar com liberdade.
Vejam
o vídeo da transmissão do Carnaval de 2026, pela TV Globo, em que o
comentarista Milton Cunha, totalmente emocionado, explode em elogios a Ney
Matogrosso.
1 — É inquestionável
que Ney Matogrosso é um artista performático de primeira grandeza. É um cantor
que dispensa comentários. Gosto de tudo o que ele faz como cantor, artista,
intérprete e performer.
2 — Milton Cunha é
um comentarista, carnavalesco e comunicador com extraordinário poder de
comunicação com o público. É também um homem inteligente e de sólida formação
intelectual. Doutor em História da Arte, tenho por ele respeito quando faz
alocuções sobre o carnaval como manifestação da arte popular e de rua.
3 — Nenhum
comunicador deve esquecer que é formador de opinião. Seus pensamentos,
principalmente quando veiculados em um meio de comunicação de amplo alcance,
como é o caso da Rede Globo, acabam influenciando a construção de opiniões e
valores nos receptores da mensagem, sobretudo naqueles que têm preguiça mental
para pensar — infelizmente, a maioria.
4 — Quando Milton
afirma, emocionado ou não, com tanta veemência, que “Ney escreveu a história da
masculinidade do século XX”, tenha a santa paciência... É uma forçada de barra
que beira o absurdo. Posso até entender que essa opinião reflita a orientação
sexual do comentarista, assumidamente gay, mas ela não reflete a realidade,
tampouco a minha percepção sobre o papel de Ney Matogrosso.
5 — Se a
masculinidade do século XX é a manifestada pela performance do artista em
questão, ela não me representa. Se assim fosse, eu teria de concordar com
opiniões míopes de algumas mulheres que dizem, ao irem para um show ou
carnaval: “Olhava para frente, para trás, para os lados, e só tinha viados...”.
É a velha história
do cisne branco. Você quer encontrar um homem que não seja afeminado, gay ou
bissexual em shows, carnavais, baladas e barzinhos? Lamento informar, mas pode
ser que existam homens que não estejam nesses lugares, e sim em outros que
talvez você não frequente.
6 — Por último, a
masculinidade não é performática; é um comportamento e uma atitude associados
ao gênero masculino e, por isso, não deve ser confundida com feminilidade. Eu
não preciso gritar que sou homem, nem que sou mulher; essas são atribuições
naturais. O gay, muitas vezes, sente necessidade de afirmar sua identidade
porque sofre rejeição e precisa ser aceito. Isso é compreensível.
Ney
é um conceito, assim como a moda é construída sobre conceitos. Mas você não
veste o conceito; veste aquilo que lhe é próprio, adequado e confortável. Os
conceitos servem para inspirar. Assim, Ney Matogrosso é uma inspiração para gays
e pessoas de orientação semelhante, mas nunca para a masculinidade do século.
Prof.
Milton Barboza da Silva
segunda-feira, 25 de maio de 2026
segunda-feira, 18 de maio de 2026
13 de Maio
Milton Barboza da Silva
A historiografia tradicional costumou marcar os fatos históricos por meio de eras, séculos, milênios ou mesmo datas específicas. Os historiadores da pós-modernidade têm aversão à forma como essa marcação temporal é feita, pois sabemos que a História é muito mais do que uma data: trata-se de um processo marcado por avanços, retrocessos e rupturas dentro de uma dialética infindável.
O movimento negro no Brasil não comemora o 13 de Maio da forma como a historiografia tradicional o apresentou, isto é, como o “Dia da Abolição da Escravatura”. Esse movimento denuncia que a escravidão no Brasil continuou mesmo após a assinatura da Lei Áurea e que, nesses 138 anos desde sua promulgação, a população negra ainda sofre os efeitos e as consequências de mais de 300 anos de escravidão.
Concordo com o movimento negro brasileiro, pois as condições da população preta no país revelam, no mínimo, um cenário de desigualdade e injustiça social visível a olho nu. Tivemos alguns avanços, é verdade. Parte deles resulta da luta dos diversos coletivos negros ao longo do tempo; outra parte decorre de leis implementadas por governos progressistas nos últimos 20 anos, como a Lei de Cotas, de 2012, entre outras políticas afirmativas adotadas no Brasil.
Ainda há muito a ser feito para combater as práticas cotidianas de racismo, sejam elas veladas ou ostensivas. Criminalizar essas práticas já é um começo importante, mas também é necessário estimular o conhecimento e a formação crítica da população por meio de modelos educacionais que abordem essa questão de maneira reflexiva.
Educação e cultura, juntas, podem contribuir significativamente para a transformação desse cenário triste de exclusão e marginalização dos povos de origem africana no Brasil.

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