sábado, 30 de maio de 2026
terça-feira, 26 de maio de 2026
Quando
a emoção se sobrepõe à razão
Se
eu fosse inscrito nas redes sociais — o que não sou —, depois do comentário que
farei, certamente seria cancelado. Mas vou reivindicar o direito de pensar, de
pensar com liberdade.
Vejam
o vídeo da transmissão do Carnaval de 2026, pela TV Globo, em que o
comentarista Milton Cunha, totalmente emocionado, explode em elogios a Ney
Matogrosso.
1 — É inquestionável
que Ney Matogrosso é um artista performático de primeira grandeza. É um cantor
que dispensa comentários. Gosto de tudo o que ele faz como cantor, artista,
intérprete e performer.
2 — Milton Cunha é
um comentarista, carnavalesco e comunicador com extraordinário poder de
comunicação com o público. É também um homem inteligente e de sólida formação
intelectual. Doutor em História da Arte, tenho por ele respeito quando faz
alocuções sobre o carnaval como manifestação da arte popular e de rua.
3 — Nenhum
comunicador deve esquecer que é formador de opinião. Seus pensamentos,
principalmente quando veiculados em um meio de comunicação de amplo alcance,
como é o caso da Rede Globo, acabam influenciando a construção de opiniões e
valores nos receptores da mensagem, sobretudo naqueles que têm preguiça mental
para pensar — infelizmente, a maioria.
4 — Quando Milton
afirma, emocionado ou não, com tanta veemência, que “Ney escreveu a história da
masculinidade do século XX”, tenha a santa paciência... É uma forçada de barra
que beira o absurdo. Posso até entender que essa opinião reflita a orientação
sexual do comentarista, assumidamente gay, mas ela não reflete a realidade,
tampouco a minha percepção sobre o papel de Ney Matogrosso.
5 — Se a
masculinidade do século XX é a manifestada pela performance do artista em
questão, ela não me representa. Se assim fosse, eu teria de concordar com
opiniões míopes de algumas mulheres que dizem, ao irem para um show ou
carnaval: “Olhava para frente, para trás, para os lados, e só tinha viados...”.
É a velha história
do cisne branco. Você quer encontrar um homem que não seja afeminado, gay ou
bissexual em shows, carnavais, baladas e barzinhos? Lamento informar, mas pode
ser que existam homens que não estejam nesses lugares, e sim em outros que
talvez você não frequente.
6 — Por último, a
masculinidade não é performática; é um comportamento e uma atitude associados
ao gênero masculino e, por isso, não deve ser confundida com feminilidade. Eu
não preciso gritar que sou homem, nem que sou mulher; essas são atribuições
naturais. O gay, muitas vezes, sente necessidade de afirmar sua identidade
porque sofre rejeição e precisa ser aceito. Isso é compreensível.
Ney
é um conceito, assim como a moda é construída sobre conceitos. Mas você não
veste o conceito; veste aquilo que lhe é próprio, adequado e confortável. Os
conceitos servem para inspirar. Assim, Ney Matogrosso é uma inspiração para gays
e pessoas de orientação semelhante, mas nunca para a masculinidade do século.
Prof.
Milton Barboza da Silva
segunda-feira, 25 de maio de 2026
segunda-feira, 18 de maio de 2026
13 de Maio
Milton Barboza da Silva
A historiografia tradicional costumou marcar os fatos históricos por meio de eras, séculos, milênios ou mesmo datas específicas. Os historiadores da pós-modernidade têm aversão à forma como essa marcação temporal é feita, pois sabemos que a História é muito mais do que uma data: trata-se de um processo marcado por avanços, retrocessos e rupturas dentro de uma dialética infindável.
O movimento negro no Brasil não comemora o 13 de Maio da forma como a historiografia tradicional o apresentou, isto é, como o “Dia da Abolição da Escravatura”. Esse movimento denuncia que a escravidão no Brasil continuou mesmo após a assinatura da Lei Áurea e que, nesses 138 anos desde sua promulgação, a população negra ainda sofre os efeitos e as consequências de mais de 300 anos de escravidão.
Concordo com o movimento negro brasileiro, pois as condições da população preta no país revelam, no mínimo, um cenário de desigualdade e injustiça social visível a olho nu. Tivemos alguns avanços, é verdade. Parte deles resulta da luta dos diversos coletivos negros ao longo do tempo; outra parte decorre de leis implementadas por governos progressistas nos últimos 20 anos, como a Lei de Cotas, de 2012, entre outras políticas afirmativas adotadas no Brasil.
Ainda há muito a ser feito para combater as práticas cotidianas de racismo, sejam elas veladas ou ostensivas. Criminalizar essas práticas já é um começo importante, mas também é necessário estimular o conhecimento e a formação crítica da população por meio de modelos educacionais que abordem essa questão de maneira reflexiva.
Educação e cultura, juntas, podem contribuir significativamente para a transformação desse cenário triste de exclusão e marginalização dos povos de origem africana no Brasil.
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
200
anos de Independência sem comemorações
(Texto
escrito em 8 de julho de 2020, publicado nesse blog, revisado e republicado seis anos após sua
primeira edição
Havia
a intenção — inclusive, uma comissão foi criada para tal fim — de que a
programação pelos duzentos anos da Independência de Sergipe se estendesse por
todo o ano. Entretanto, já em abril se sabia da impossibilidade de realizar as
comemorações, em virtude dos decretos governamentais e da expansão do corona
vírus pelo Estado.
O
centenário da Independência de Sergipe (1920), por pouco, não deixou de ser
comemorado. E a razão? A pandemia da gripe espanhola, que assolou diversos
países entre 1918 e 1920. Em Sergipe, o período mais crítico ocorreu entre
meados de 1918 e o início de 1919. Foram três meses de intensa afetação da
população, gerando uma crise sanitária sem precedentes. Nesse período, os
registros oficiais — questionados até mesmo pelas autoridades da época —
contabilizaram 25.910 infectados pelo vírus, com um total de 910 óbitos. Em
apenas três meses!
Esse
quadro terminou por interferir na grande festa que se pretendia realizar pelas
comemorações do centenário da Independência de Sergipe. Ao final, a celebração
restringiu-se a uma festa localizada, com distribuição de medalhas, comendas e
diplomas oficiais. O ponto alto foi a inauguração da estátua de Tobias Barreto,
obra do escultor italiano Lourenzo Petrucci, um belo exemplar da Belle Époque, instalada na Praça Pinheiro
Machado, que, após a colocação da estátua, passou a se chamar Praça Tobias
Barreto.
Hoje,
apesar de todos os esforços empreendidos por diversas instituições, o
bicentenário não pôde ser celebrado. Como no centenário, o impedimento se deveu
à pandemia da Covid-19. Assim, as celebrações ficaram restritas aos meios de
comunicação, que veicularam, ao longo do dia, vinhetas comemorativas. Muito
pouco, mas... vamos esperar o tricentenário, preferencialmente sem pandemia.
Durante
muitos anos, a data comemorativa da Independência do Estado era celebrada em
dois momentos: no 8 de julho e no 24 de outubro. Não se sabe ao certo como o 24
de outubro passou a ser considerado uma data comemorativa da independência. Já
realizei diversas pesquisas, tanto documentais quanto por meio da história
oral. O único registro que localizei diz respeito ao fato de Sergipe ter
retomado a condição de independência, conforme previsto no Decreto de 8 de
julho de 1820, uma vez que, desde 1822, havia voltado à sujeição da Bahia.
Contudo, com a expulsão das tropas portuguesas sediadas em Salvador, o governo
provisório, no Rio de Janeiro, confirmou a autonomia de Sergipe. E essa
confirmação ocorreu em 24 de outubro de 1824. Conclui-se, portanto, que se
tratou mais de uma comemoração popular do ato de confirmação da independência
do que propriamente do ato oficial. Oficialmente, comemorava-se o 8 de julho,
mas o povo insistia no 24 de outubro.
Durante
a elaboração da Constituição do Estado de Sergipe, promulgada em 5 de outubro
de 1989, ficou definido que o feriado comemorativo da Independência de Sergipe
seria apenas o 8 de julho. Por proposição do então deputado estadual
constituinte Marcelo Déda, o 24 de outubro passou a ser comemorado como o Dia
da Sergipanidade.
A
Independência de Sergipe não transcorreu de forma tranquila. Ao contrário, foi
um processo lento, repleto de idas e vindas. A Bahia não admitia a perda do
território sergipano e, utilizando-se de sua maior influência junto ao governo
central, conseguiu protelar, em diversos momentos, a efetivação do Decreto
Real. Em muitas ocasiões, seus comandantes, tanto civis quanto militares,
realizaram investidas sobre o território sergipano, promovendo invasões e
prisões de líderes e governantes. Em 1822, apenas dois anos após o Decreto da
Independência, a Bahia invadiu São Cristóvão e prendeu o governador da
Capitania, Carlos Burlamarque, levando-o, juntamente com sua esposa e filhos,
para Salvador.
Como
a Independência de Sergipe está diretamente ligada à Independência do Brasil —
já que ambas são contemporâneas —, Sergipe terminou se envolvendo em todo o
processo que culminou na Independência do Brasil. Assim, diversos movimentos
pró-independência foram travados em nosso território, tanto em defesa da
independência de Sergipe quanto da do Brasil.
Em síntese, nosso processo de
independência inicia-se com a Carta Régia de 10 de maio de 1728, que transferiu
a jurisdição dos moradores da Freguesia de Nossa Senhora de Nazareth (Bahia)
para o domínio da Freguesia do Rio Real de Cima (Sergipe). Com a Carta Régia de
24 de abril de 1729, a Bahia conseguiu empurrar as fronteiras da região de
Itapoã para as proximidades do rio Subaúma, mais próximas de Sergipe, impondo
uma perda territorial que até hoje nos faz falta, uma vez que jamais foi
corrigida. Em seguida, veio o Decreto de 8 de julho de 1820, pelo qual o rei
isentou Sergipe da submissão à Bahia — o Decreto da Independência. Por fim, o
Decreto de 5 de dezembro de 1822 ratificou todos os anteriores. O que, se por
um lado confirmou nossa independência, por outro não modificou os avanços da
Bahia sobre o território sergipano, uma vez que tais avanços foram igualmente
ratificados.
Prof.
Milton Barboza da Silva
A revolta do Homo Erectus
Milton Barboza da silva
A
espécie humana levou milhares e milhares de anos para se levantar, tornar-se
bípede ( andar sobre os dois pés ), foi um longo processo de perdas e
aquisições de atributos, tanto anatômicos quanto comportamentais. Olhando-nos
caminhando hoje, com desenvoltura, equilibrado sobre os dois pés,
aparentemente, parece tarefa fácil e absolutamente natural. Mas não é, não foi
e, ao que parece, não será.
Para
reforçar o grau de dificuldade do bipedalismo ( ato de andar sobre dois pés),
convém observar como é difícil para um bebê se manter equilibrado, quando
engatinhar é tão fácil, tem crianças que parece ligar um turbo enquanto se
locomove sobre os joelhos e as mãos. Ressalte-se, ainda, que a curvatura no
solado dos pés humanos, foi uma aquisição anatômica imprescindível ao ato de se
levantar, que os diga os famosos “pés chatos” , vítimas de uma “tortura”
ortopédica durante anos, quando os ortopedistas recomendavam o uso das
famigeradas botas para moldar a cava do solado do pé.
Agora,
a certeza mesmo da existência do homem erectus pleno – o que só andava apoiado
sobre os pés -, veio com a descoberta dos fósseis de Lucy, assim chamada porque
o paleontólogo que descobriu seus ossos estava ouvindo, no momento do achado em
seu fone de ouvidos, a música Lucy in the Sky with Diamonds, gravada pelos Beatles ( 1967), composição de Lenon/McCarthey. Essa nossa
ancestral, classificada de Australopithecus Aferensis, deixa pra lá,
vamos chamá-la só de Lucy, possuía todos os requisitos anatômicos de um
bipedalismo. A posição de seu crâneo, a coluna em formato de um S
delgado, bem como a curvatura do pé, tudo isso indica que ela andava, corria e
pulava sobre os pés e não com apoio das mãos.
Porém lá na
Tanzania, na África Ocidental, em 1952, foi identificado um vírus chamado
CHIKV, apelidado de Chikungunya, que em 2005 infectou na India, Indonésia,
Maldávia, Mianmar, e na Tailândia quase 2 milhões de pessoas. Em 2007, houve
epidemia do CHIKV no norte da Itália e de lá para vários países, incluindo o
Brasil. Você já deve está se perguntando, o que a epidemia de Chikungunya tem
haver com o tema central de nossa conversa?
Em dialeto
maconde, falado pelos povos macondes, que habitam ao norte de Moçambique e no
sul da Tanzânia, a palavra Chikungunya significa “ aqueles que se dobram “, que
andam encurvado. A postura arqueada que o doente infectado pelo CHIKV assume durante o estágio mais agudo da
infecção, deve-se, segundo os reumatologistas, a inflamações nas articulações,
principalmente na região do quadril e nos tornozelos, mas também se espalha
entre os dedos das mãos e dos pés. As dores são tão fortes e constantes que o
doente não consegue ficar, durante semanas, meses e alguns por anos, em posição
erecta. Passa a andar, literalmente encurvado.
Como pode uma
injeção subcutânea de uma carga viral, depositada após uma picada de uma fêmea
do Aedes aegypti, o mesmo mosquito que transmite a dengue e a zica,
colocar em risco tudo o que conquistamos
a 4 milhões de anos atrás? Isso mesmo, uma pessoa infectada pelo vírus da
Chikungunya não consegue ficar na posição erecta, quando está sentado, ao se
levantar, é forçado a assumir uma posição encurvada, uma vez que suas
articulações não respondem. Durante semanas, meses, um ser humano é obrigado a
abrir mão de uma conquista de milhões de anos e se curvar diante de um vírus!
Ao que vejo,
não se trata apenas de uma curvatura, os vírus têm nos submetido a uma pesada
carga, nos últimos tempos, tem custado a vida de milhões de pessoas. Então,
quem é mesmo o inimigo do homem? Um ser tão pequeno, que até mesmo nem se sabe
se é um ser vivo ou não, de constituição
simples, que precisar parasitar uma
célula para garantir sua replicação, ameaça toda a espécie humana! Ameaça a
vida e a postura dos seres humanos, esses sim, complexos.
Por tudo isso,
considerando que o Brasil vive hoje, em plena epidemia do CHIKV, porque temos
centenas e milhares de pessoas incapacitadas de usufruírem, minimamente uma
conquista de milhões de anos, que é andar em uma postura erecta, mas também
incapacitadas para realizarem as mais simples tarefas de seu dia a dia, é que
conclamo a revolta do homo erectus.
Devemos nos
rebelar pelo direito de sermos bípedes, pelo direito de garantir e preservar a
conquista do bipedalismo, pelo direito de andar em pé e não encurvado, pelo
direito de não nos submetermos a tirania de um ser parasitário. Que nossa
rebeldia chegue aos ouvidos das autoridades governamentais, aos laboratórios, às
universidades e aos pesquisadores, aos investidores das pesquisas. A pandemia
do Covid-19 é uma prova de que quando se unem esforços, uma vacina é descoberta
em pouquíssimo tempo.



