terça-feira, 26 de maio de 2026

Quando a emoção se sobrepõe à razão

 

Se eu fosse inscrito nas redes sociais — o que não sou —, depois do comentário que farei, certamente seria cancelado. Mas vou reivindicar o direito de pensar, de pensar com liberdade.

Vejam o vídeo da transmissão do Carnaval de 2026, pela TV Globo, em que o comentarista Milton Cunha, totalmente emocionado, explode em elogios a Ney Matogrosso.

1 — É inquestionável que Ney Matogrosso é um artista performático de primeira grandeza. É um cantor que dispensa comentários. Gosto de tudo o que ele faz como cantor, artista, intérprete e performer.

2 — Milton Cunha é um comentarista, carnavalesco e comunicador com extraordinário poder de comunicação com o público. É também um homem inteligente e de sólida formação intelectual. Doutor em História da Arte, tenho por ele respeito quando faz alocuções sobre o carnaval como manifestação da arte popular e de rua.

3 — Nenhum comunicador deve esquecer que é formador de opinião. Seus pensamentos, principalmente quando veiculados em um meio de comunicação de amplo alcance, como é o caso da Rede Globo, acabam influenciando a construção de opiniões e valores nos receptores da mensagem, sobretudo naqueles que têm preguiça mental para pensar — infelizmente, a maioria.

4 — Quando Milton afirma, emocionado ou não, com tanta veemência, que “Ney escreveu a história da masculinidade do século XX”, tenha a santa paciência... É uma forçada de barra que beira o absurdo. Posso até entender que essa opinião reflita a orientação sexual do comentarista, assumidamente gay, mas ela não reflete a realidade, tampouco a minha percepção sobre o papel de Ney Matogrosso.

5 — Se a masculinidade do século XX é a manifestada pela performance do artista em questão, ela não me representa. Se assim fosse, eu teria de concordar com opiniões míopes de algumas mulheres que dizem, ao irem para um show ou carnaval: “Olhava para frente, para trás, para os lados, e só tinha viados...”.

É a velha história do cisne branco. Você quer encontrar um homem que não seja afeminado, gay ou bissexual em shows, carnavais, baladas e barzinhos? Lamento informar, mas pode ser que existam homens que não estejam nesses lugares, e sim em outros que talvez você não frequente.

6 — Por último, a masculinidade não é performática; é um comportamento e uma atitude associados ao gênero masculino e, por isso, não deve ser confundida com feminilidade. Eu não preciso gritar que sou homem, nem que sou mulher; essas são atribuições naturais. O gay, muitas vezes, sente necessidade de afirmar sua identidade porque sofre rejeição e precisa ser aceito. Isso é compreensível.

Ney é um conceito, assim como a moda é construída sobre conceitos. Mas você não veste o conceito; veste aquilo que lhe é próprio, adequado e confortável. Os conceitos servem para inspirar. Assim, Ney Matogrosso é uma inspiração para gays e pessoas de orientação semelhante, mas nunca para a masculinidade do século.

Prof. Milton Barboza da Silva

  

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