Quando
a emoção se sobrepõe à razão
Se
eu fosse inscrito nas redes sociais — o que não sou —, depois do comentário que
farei, certamente seria cancelado. Mas vou reivindicar o direito de pensar, de
pensar com liberdade.
Vejam
o vídeo da transmissão do Carnaval de 2026, pela TV Globo, em que o
comentarista Milton Cunha, totalmente emocionado, explode em elogios a Ney
Matogrosso.
1 — É inquestionável
que Ney Matogrosso é um artista performático de primeira grandeza. É um cantor
que dispensa comentários. Gosto de tudo o que ele faz como cantor, artista,
intérprete e performer.
2 — Milton Cunha é
um comentarista, carnavalesco e comunicador com extraordinário poder de
comunicação com o público. É também um homem inteligente e de sólida formação
intelectual. Doutor em História da Arte, tenho por ele respeito quando faz
alocuções sobre o carnaval como manifestação da arte popular e de rua.
3 — Nenhum
comunicador deve esquecer que é formador de opinião. Seus pensamentos,
principalmente quando veiculados em um meio de comunicação de amplo alcance,
como é o caso da Rede Globo, acabam influenciando a construção de opiniões e
valores nos receptores da mensagem, sobretudo naqueles que têm preguiça mental
para pensar — infelizmente, a maioria.
4 — Quando Milton
afirma, emocionado ou não, com tanta veemência, que “Ney escreveu a história da
masculinidade do século XX”, tenha a santa paciência... É uma forçada de barra
que beira o absurdo. Posso até entender que essa opinião reflita a orientação
sexual do comentarista, assumidamente gay, mas ela não reflete a realidade,
tampouco a minha percepção sobre o papel de Ney Matogrosso.
5 — Se a
masculinidade do século XX é a manifestada pela performance do artista em
questão, ela não me representa. Se assim fosse, eu teria de concordar com
opiniões míopes de algumas mulheres que dizem, ao irem para um show ou
carnaval: “Olhava para frente, para trás, para os lados, e só tinha viados...”.
É a velha história
do cisne branco. Você quer encontrar um homem que não seja afeminado, gay ou
bissexual em shows, carnavais, baladas e barzinhos? Lamento informar, mas pode
ser que existam homens que não estejam nesses lugares, e sim em outros que
talvez você não frequente.
6 — Por último, a
masculinidade não é performática; é um comportamento e uma atitude associados
ao gênero masculino e, por isso, não deve ser confundida com feminilidade. Eu
não preciso gritar que sou homem, nem que sou mulher; essas são atribuições
naturais. O gay, muitas vezes, sente necessidade de afirmar sua identidade
porque sofre rejeição e precisa ser aceito. Isso é compreensível.
Ney
é um conceito, assim como a moda é construída sobre conceitos. Mas você não
veste o conceito; veste aquilo que lhe é próprio, adequado e confortável. Os
conceitos servem para inspirar. Assim, Ney Matogrosso é uma inspiração para gays
e pessoas de orientação semelhante, mas nunca para a masculinidade do século.
Prof.
Milton Barboza da Silva
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